Krokodil - Desomorfina
Farmacologia [5] [6] [7]:
A desomorfina inibe a atividade da colinesterase, sendo a velocidade de reação dependente das concentrações de substrato. A afinidade da desomorfina para a colinestarase poderá ser igual ou superior do que para a acetilcolina.
A desomorfina é uma base orgânica, com pKa de 9,69, ficando ionizada a pH fisiológico (99,5%). Existe um equilíbrio entre a forma ionizada e não-ionizada, sendo que é esta última forma que atravessa facilmente a BHE. A desomorfina tem a capacidade de se ligar a recetores opióides na forma ionizada. Após análise de efeitos da desomorfina em animais, assim como a sua semelhança estrutural com a morfina, pensa-se que esta funciona como potente agonista do recetor opióide μ e também como agonista dos recetores opióides κ e δ, embora com menor atividade.
Comparação com a Morfina [4] [8]:
Quanto às modificações estruturais, existiu a eliminação do grupo 6-hidroxilo do anel ciclo-hexilo. Esta alteração poderá estar na base do aumento dos efeitos tóxico e convulsivantes. Outra modificação estrutural é a hidrogenação da ligação dupla 7-8, potenciando a ação do fármaco.
Estas alterações aumentaram a lipofília do fármaco em relação à morfina, favorecendo a penetração na Barreira Hematoencefálica (BHE) e conduzindo a um aumento de potência analgésica em 10 vezes, assim como um efeito mais rápido. Quanto ao efeito tóxico, em comparação com a morfina é de apenas 3 vezes maior.
O primeiro relatório sobre o uso clínico da desomorfina foi em 1935, era descrito que a desomorfina tinha um efeito 5 a 10 vezes superior à morfina, após 900 doentes serem tratados com desomorfina no pré e pós-operatório em casos de trauma. Possuía um tempo de início de ação mais rápido que a morfina, no entanto tinha um tempo de duração mais curto. Também se verificou que o efeito sedativo e de peristaltismo intestinal foi menor, assim como uma menor frequência de vômitos e tonturas em relação com os efeitos provocados pela morfina. Posto isto, a desomorfina tinha todo o potencial para ser uma boa substituição da utilização de morfina, uma vez que os efeitos secundários estavam menorizados.
De seguida, realizaram-se mais estudos, um deles foi realizado com 126 pacientes que usavam a desomorfina e 776 pacientes que usavam a morfina para o alívio da dor pós-operatória. Concluiu-se que o efeito de 1 mg de desomorfina era equivalente a 10 mg de morfina para o alívio da dor. Apesar disto o tempo de duração do efeito era de 2 a 3 horas para a desomorfina, enquanto para a morfina era de 3 a 4 horas. Quanto às náuseas, ocorreram apenas em 23 casos aquando do uso de desomorfina e em 160 casos no caso da morfina. Neste estudo, concluíu-se que a desomorfina não apresentava vantagens sobre a morfina, porque possuía uma ação demasiado rápida.
Outro estudo de comparação da morfina com a desomorfina, foi realizado em doentes com cancro, em que 10 pacientes estavam a utilizar 1mg de desomorfina e 20 pacientes estavam a usar 10 mg de morfina, por via subcutânea. O alívio da dor foi de 96,4% nos pacientes que utilizavam a desomorfina e 94,0% nos pacientes que usavam a morfina. Neste estudo, as náuseas e vómitos aconteceram em ambos os grupos de pacientes, sem diferenças significativas.
Muitos mais estudos de comparação se seguiram, e continuavam a constatar os mesmos resultados. Apesar de a desomorfina ter um efeito extremamente rápido assim como eficaz no alívio da dor, este rapidamente acabava e por isso era necessário administrar mais doses, o que levava mais rapidamente a tolerância e dependência nos pacientes. Foi também verificado que a síndrome de abstinência era comparável nos doentes que usavam desomorfina e morfina.

Fig. 4 - Recetores Opióides (retirado de medicalnewstoday.com/
info/oic/images/opioid1.jpg) (consultado a 27/05/2015)

Fig. 5 - Morfina (retirada de upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/33/
Morphin_-_Morphine.svg/220px-Morphin_-_Morphine.svg.png) (consultado a 27/05/2015)

Fig. 1 - Desomorfina (retirada de upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/
thumb/3/3a/Permonid.svg/220px-Permonid.svg.png, consultado a 27/05/2015)
[4] - Katselou, M., Papoutsis, I., Nikolaou, P., Spiliopoulou, C., & Athanaselis, S. (2014). A “Krokodil” emerges from the murky waters of addiction. Abuse trends of an old drug. Life sciences, 102(2), 81-87.
[5] - toxnet.nlm.nih.gov/cgi-bin/sis/search2/r?dbs+hsdb:@term+@DOCNO+8070 (consultado a 27/05/2015)
[6] - pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/Desomorphine#section=Pharmacology-and-Biochemistry (consultado a 22/05/2015)
[7] - rsc.org/chemistryworld/2014/07/desomorphine-krokodil-podcast (consultado a 22/05/2015)
[8] - Eddy NB et al; Synthetic Substances with Morphine-like Effect: Clinical Experience: Potency, Side-Effects, Addiction Liability (Monographs on Individual Drugs: Desomorphine); Bull World Health Organization 17: 569-863 (1957)
Todas as imagens deste slideshow foram retiradas de "The World’s Deadliest Drug: Inside a Krokodil Cookhouse"; time.com/3398086/the-worlds-deadliest-drug-inside-a-krokodil-cookhouse (consultado a 27/05/2015)
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